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Transexual conquista direito de disputar competições oficiais de vôlei feminino

A mudança de gênero vem ao longo dos anos colocando em prova que a sociedade passa por constantes transformações. O caso da transexual Isabelle Neris, 25 é um exemplo. Ela é jogadora de vôlei e conseguiu uma autorização da Federação Paranaense de Voleibol (FPV) e posteriormente da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), para jogar na equipe feminina do Voleiras e disputar competições amadoras da federação local. Isabelle atua como central e treinava há dois anos no clube, mas nunca tinha jogado uma partida oficial. Desde o mês passado, ela participa de torneios em Curitiba e cidades vizinhas. Devido sua ocupação de cabeleireira, Isabelle só treina uma vez na semana.

Isabelle Neris inaugura um novo momento no vôlei brasileiro – Fotos: Divulgação

A história de Neris, pode desbravar novos caminhos no esporte ou ser alvo de uma polêmica sem precedentes, dependendo da visão de cada pessoa em analisar o caso de maneira ideológica, jurídica ou simplesmente natural dentro da modernidade do mundo atual.

Formada pelo curso de tecnóloga em radiologia, Isabelle Neris, conta que começou a jogar vôlei aos oito anos num projeto social do técnico Bernadinho, em Curitiba, na época chamada da escolinha do Rexona. Desde pequena, ela treinava com meninos e meninas, por isso, sempre foi fácil administrar sua opção sexual dentro da modalidade.

De acordo com Isabelle, sua conquista foi construída a base de muito esforço, dedicação e empenho, pois foi preciso superar barreiras e obstáculos no início de sua trajetória num passado de muita luta.

“Depois que o projeto do Rexona saiu de Curitiba não joguei por mais nenhum clube, apenas jogava com amigos nos finais de semana. Até então, eu não podia competir em jogos oficiais, porque não me enquadrava no nível do técnico do masculino, e era impedida de jogar no feminino”, explica.

Sonho

Depois de superar os percalços do preconceito da sociedade e até dentro do esporte, Isabelle comemorou muito quando conseguiu o feito, mas confessou que sentiu medo de ter seu pedido negado.

“Foi a realização de um sonho. Desde o início ficou muito claro que meu nível técnico era de vôlei feminino. Mas devido a minha situação na época, não podia. Depois que mudei minha documentação, e com a liberação da federação estadual foi maravilhoso. Confesso que senti muito medo de ter meu pedido negado, mas fui atendida com muito carinho, e foram simpáticos à minha causa”, relatou.

Para a transexual, seu caso é a quebra de muitos tabus não apenas no vôlei, mas em qualquer modalidade, pois mostra que as pessoas com mudanças de gêneros podem e têm o direito de liberdade como qualquer outro cidadão.

“Me senti feliz de poder mostrar para uma sociedade hipócrita e que segrega tanto as transexuais, que nós temos opção de caminhos diferentes e que podemos ir em busca dos nossos sonhos. Espero que meu caso sirva para dar início ao ‘parâmetro’ para outras transexuais possam ser inseridas no esporte”, completou.

Direito adquirido

Ela começou a jogar vôlei aos oito anos

O presidente da Federação Paranaense de Voleibol (FPV) e vice-presidente da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), Neuri Barbieri, 66, explica que o caso de Isabelle foi concedido por direito adquirido de poder jogar pela equipe feminina do Voleiras, pois ela apresentou sua documentação constatando a veracidade de todos os procedimentos legais da conquista de gêneros.

“No início deste ano fui informado dessas tratativas e resolvi atender pessoalmente. Ao verificar a documentação decidi autorizar a participação da mesma por meio de sua equipe no Campeonato Regional de Curitiba. Entendi que não havia por que esperar por uma autorização da CBV, COB e COI, pois havia uma autorização e determinação judicial de alteração do gênero e todos os exames e tratamento médico. Somente cumpri uma determinação judicial”, justifica.

O dirigente lembra que a luta de Isabelle já vem desde o ano passado, quando houve uma primeira tentativa de liberação para atuar na equipe feminina.

“Em 2016, a referida atleta procurou a Federação Paranaense para saber da possibilidade de integrar uma equipe feminina nos jogos que a federação promove. Na ocasião, foi atendida pelo vice-presidente e superintendente Jandrey Vicentin, que obteve os dados da mesma (exames médicos, documentos pessoais e autorização judicial de mudança de gênero). Na oportunidade, ela solicitou informações à Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) que estudou a legislação do Comitê Olímpico Internacional (COI) e Comitê Olímpico Brasileiro (COB), e não obtendo uma posição conclusiva”, conta.

Quebra de barreiras

Segundo Neuri Barbieri, posteriormente a divulgação do fato na imprensa, a CBV normatizou o assunto e criou uma Comissão Médica para analisar casos semelhantes. Para ele, é algo que pode ocasionar a entrada de outros casos que existem pelo país, pois foi algo que quebrou muitas barreiras não apenas no vôlei, mas dentro do esporte no geral.

“Acho que esse fato vai motivar que outras pessoas venham a se interessar em participar de competições, uma vez que houve grande repercussão nos órgãos de comunicação. Sobre o rompimento de padrões históricos, acho que estamos vivendo momentos muito diferentes de anos passados, pois hoje há uma compreensão diferente da sociedade com respeito a opção sexual das pessoas. Não há mais espaço para preconceitos e, especialmente no voleibol, existem muitos atletas que assumiram publicamente sua opção sexual diferente da convencional”, comentou.

Dirigente pede cautela

Caso semelhante ao dela foi registrado na Itália

Ex-atleta nas décadas de 1970 e 1980, além de ter sido treinador de equipes de vôlei e seleções estaduais no masculino e feminino, o atual presidente da Federação Amazonense de Voleibol (FAV), Tadeu Picanço, diz que todo cidadão tem seu direito diante da constituição, porém, na visão dele, há casos que não podem ultrapassar a lei natural da vida.

“Acredito que cientificamente está provado que a sua estrutura física é superior à das mulheres, já que seu corpo é de homem. Portanto, as vantagens serão desproporcionais às suas adversárias. É como permitíssemos que um atleta que se utiliza de artifícios químicos para superar as barreiras impostas pelas limitações genéticas”, alerta.

Sobre a liberação da Federação Paranaense e Confederação de Voleibol para Isabelle Neris, Tadeu Picanço, afirma que é algo muito perigoso e pode abrir precedentes dentro da modalidade e do esporte em geral.

“Se pensarmos dessa forma, seremos obrigados a reconhecer o doping como um meio lícito para alcançar um resultado. O esporte não deve viver de polêmicas e sim de treinamento, busca e superação dos limites impostos pela genética de cada um. Portanto, no meu entendimento, por mais que haja baixa do hormônio masculino, ele continuará a ser superior ao encontrado na mulher, e isso é uma vantagem desproporcional em termos de capacidade física”, sentencia.

Ampla discussão

Consagrada no voleibol feminino amazonense, a treinadora e professora de educação física Lilian Valente, diz que o caso de Isabelle precisa ser discutido com muita calma.

“É um caso ainda que precisa ser muito discutido, pois a questão fisiológica pode prevalecer. Conheço outro caso de uma jogadora que jogou futsal. Penso que ainda não estamos preparados para esse tipo de coisa, pois nossa sociedade é extremamente tradicional. Enquanto educadora penso na questão da inclusão, bem como na igualdade, mas temos que levar em conta realmente a questão fisiológica, que em alguns casos poderá levar vantagem”, observa.

Para Lilian Valente, mesmo com a liberação, ainda há uma diferença muito grande do potencial e diferenciação entres homens e mulheres, por isso, é algo que que precisa de um debate profundo em todas as vertentes sobre o assunto.

“Talvez uma discussão nos leve a traduzir as modalidades esportivas e quem sabe mudar a forma de competir, dando oportunidades a todos e não excluindo. Quando falamos de rendimento, a concepção é bem diferente, daí o gênero masculino levar vantagem em cima do feminino. Portanto, as confederações devem realizar encontros para debater este caso, pois penso que a partir de agora essa prática deva ser constante, então merece tanto discussão quanto adequação de regras”, conclui. EM TEMPO

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